Nos últimos anos temos assistido a uma verdadeira revolução na relação entre o Estado e os cidadãos, com a desmaterialização de processos antes hiper-burocráticos em plataformas electrónicas simples.
A mais avançada destas relações estava, claro, na cobrança de impostos. É sempre pelo lado da receita que se actua primeiro. E para todos nós a facilidade de entregar a penosa declaração de IRS em formato electrónico passou a ser o paraíso.
Mas um dos grandes problemas do Estado na construção destas plataformas é que se agarram ao corpo da lei e à lógica do formulário de papel. Não é caso único. Com muita frequência os sistemas de gestão de atendimento, vulgo filas de espera, estão organizados por decreto-lei. Recentemente descobri que para pedir uma certidão nas finanças devia tirar a senha Contencioso (mas nada do que ia pedir me indiciava que já estaria à porta do tribunal).
Este discurso todo para falar de um projecto que descobri ontem, o Modelo 3, e que mais não faz do que pegar no processo de entrega da declaração de IRS e simplificá-la de tal forma na óptica do utilizador, que quando voltei a olhar para o mesmo modelo no portal das finanças senti calafrios.

Aquilo que o Modelo 3 faz é dar ao contribuinte uma ferramenta tão simples, básica, objectiva e intuitiva que quase tenho vontade de me oferecer para fazer as declarações de impostos aos amigos.
Mas tem outra vantagem ainda, sempre que inserimos os montantes dos benefícios fiscais, ficamos logo a saber se atingimos o máximo ou se ficámos aquém. Ou seja, durante o próximo ano posso simular com mais antecedência a minha declaração e decidir por reforços nos PPR’s, por exemplo. Não é difícil pensar em potenciais patrocinadores do projecto.
A forma como os descobri no twitter prova mais uma vez que uma escuta activa por parte das marcas dá bons resultados.
Meus caros, isto é verdadeiro serviço público. Feito por iniciativa privada.
A verdadeira revolução do e-gov será quando as coisas começarem a ser feitas não só para facilitar a vida ao cidadão mas também para lhe dar uma boa experiência de utilização, que o aproxime da ideia da coisa comum, e que de facto sejam muito mais simples de usar. Divertidas até, porque não? Pagar impostos é sempre penoso mas que ao menos o processo seja agradável.
Resumindo, temos aqui um belo exemplo do que é trabalhar a pensar no utilizador final e se eu fosse Director Geral dos Impostos já estava a nacionalizar este projecto em nome do interesse nacional. Ou pelo menos a contratar os seus mentores.